Marcos Aurelio

Olá, sou Marcos Aurélio e trabalho com ilustração profissional desde 1991!

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Tesoura, cola e chave de fenda

Tesoura, cola e chave de fenda

Comecei a me envolver com ilustração digital 2D em 1990 e profissionalmente a partir do ano seguinte.

Em paralelo minha imersão na tecnologia de modelagem e animação 3D, um pouco mais complexa para a produção de ilustrações, ocorreu até que de forma bem natural.

No início dos anos 90 os programas para arte digital não eram muito intuitivos ou amigáveis.

Isso me lembra ter escolhido uma plataforma muito específica para trabalhar com os programas da época, computadores Commodore Amiga. Mais tarde, devido a facilidade na aquisição($) e montagem acabei mudando para o mundo do PC e estou até hoje.

Nessa época não haviam cursos ou disponibilidade de tutoriais como hoje.

Manuais então era coisa rara.

Essa dificuldade valeu a pena pois, graças a interferência dos artistas digitais exigindo entre várias coisas uma inteface mais interativa, deu para perceber que tanto os profissionais daquela época quanto os programas evoluíram e hoje conversam muito melhor entre si.

Mas muito tempo antes de conhecer objetos virtuais, que somente existem na realidade digital, comecei na infância a construir meus objetos tridimensionais.

Meus pais se esforçavam muito para incentivar a criatividade dos filhos.

Sempre que havia condições minha mãe me presenteava com revistas infantis que traziam em suas páginas um passatempo bastante comum na época:  brinquedos de papel para recortar, montar e colar.

Hoje basta digitar “toy paper” nos sites de procura para surgirem em resposta na sua tela centenas de opções desses brinquedos de papel.

Naquela época eles eram como brindes que vinham em revistas infantis na sua grande maioria.

Até pacotes de cereais traziam brinquedos de papel no verso da embalagem. Era uma festa para mim.

Tinham um nível de dificuldade relativamente fácil mas exigiam de meus seis anos de idade muita concentração uma vez que usava uma tesoura de adultos para recortar aquelas delicadas pecinhas de papel.

Os excessos ou exageros na dosagem da cola branca também eram constantes.

Tesoura sem ponta para crianças era um luxo que não tínhamos. A regra era “se vira com o que tem”.

Para mim era impressionante, a primeira vista, ver a folha na revista dobrada e ficando enorme quando aberta contendo as partes para serem recortadas,

Porém logo me decepcionava ao ver o tamanho relativamente menor do modelo finalizado e colado.

Mas era muito divertido a espectativa para conferir se o modelo em questão ficaria montado igual à imagem do brinquedo na capa ou página da revista.

As vezes, dada a dificuldade encontrada em algumas montagens, chegava até a duvidar que o resultado ficaria igual.

Nenhum daqueles brinquedos de papel duravam mais do que uns poucos dias pois os guardava junto com todos os outros brinquedos na mesma caixa e dessa forma eles sempre ficavam bem amassados.

Mas acho que isso era o que , de certa forma, estimulava meus pais  a sempre trazer uma nova revista com um novo brinquedo de papel para ser montado.

Havia muito interesse e expectativa para ver o resultado de todo aquele exercício de construção dos brinquedos de papel mas em contrapartida a vida dos meus brinquedos de plástico ou metal não era nada divertida, para eles, pois desmontava praticamente todos os brinquedos que ganhava. Todos mesmo, sem exceção.

Imaginar como funcionavam, como se movimentavam, o que havia dentro deles era sedutor demais para deixar a vontade passar.

Não faz muito tempo vim saber de minha mãe que sempre ao sair com meu pai para comprar algum presente para os filhos ela o ouvia dizer “Para o Marcos escolha qualquer coisa sem parafusos senão ele vai desmontar”.

Haha, e era a mais pura verdade.

Nossa, me dei conta nesse instante de que eu era o Cid da vida real!

Nunca parei de construir modelos e na adolescência criava meus próprios brinquedos de papel que eram produzidos em sua maioria usando cartolina e cola branca com superfícies pintadas com guache.

Mas houve um momento em especial, ainda na infância, que no caminho para a escola passávamos, eu e minha mãe, na frente de uma copiadora que tinha em seu interior como decoração um avião de brinquedo fixado na parede atrás do balcão como se fosse um crucifixo.

Certa vez, para meu espanto, eu o vi sobre o balcão movendo-se sobre ele e com sua a hélice girando a toda velocidade para a apreciação de algumas pessoas que estavam dentro da loja.

Era muito interessado em aviação e muito curioso para saber como as coisas funcionavam mas, acima de tudo, extremamente tímido.

Dessa forma acabei por pedir para que minha mãe perguntasse  se o pequeno avião estava a venda.

Não estava.

E por timidez não abria a boca para tirar as dúvidas que explodiam em minha mente: “Como a hélice gira se não tem motor? Suas asas são fininhas demais, será que voa? O que então faz a hélice girar??”

Fiquei sem saber durante muito tempo como aquele aviãozinho aparentemente frágil conseguia girar as hélices velozmente.

Tempos depois, fazendo pesquisas em publicações de aeromodelismo, descobri que nada mais era do que um elástico esticado logo abaixo da fuselagem do pequeno avião e que após uma torção de várias voltas essa energia era transferida para a hélice.

A simplicidade das coisas mais uma vez me surpreendendo.

Bem, até obter essa informação foram vários modelos de pequenos aviões precários que construia usando os famosos motores Mabuchi retirados dos brinquedos que desmontava e com hélices feitas a mão. Mas nada de vôos.

Se até um pirocóptero, simples e funcional,  voava porque não conseguia fazer meus aviões voarem?

Essa curiosidade e vontade de descobrir como funcionavam as coisas – havia inclusive uma publicação chamada COMO FUNCIONA que dedicarei um post para falar como esse tipo de material informativo foi impactante para mim –  enfim, esse interesse extremo foi um estímulo para montar meus pequenos “projetos aeronáuticos” usando qualquer material que fosse relativamente leve, buscando simetria entre as peças, o equilíbrio e distribuição de peso, mas para minha tristeza ainda não conseguia nenhum resultado prático de voo convincente.

Era um momento de transição e não demorou muito para que cola branca e tesoura fossem atualizados para estilete, madeira balsa, cola instantânea de modelismo e qualquer outro material que fosse indicado pelas revistas de aeromodelismo que passei a comprar.

Como na minha adolescência o dinheiro era escasso eu evitava os projetos com motores e controles remotos.

O foco eram os planadores.

E olha que paralelo a tudo isso existia uma paixão secreta que cultivo e me fascina até hoje: os aviões de papel.

Nada de cola, apenas dobras.

São extremamente funcionais e sempre seduziram muito mais por serem dinâmicos em relação às belas dobraduras de papel estáticas que aprendi a fazer e que também criaram um curto período de obsessão: os origamis.

A comunicação hoje em dia é uma revolução e tornou acessível toneladas de tutoriais que estão espalhados pelos quatro cantos da internet.

E existe um canal sobre aviões de papel que conheci recentemente e que recomendo para que você possa conferir o trabalho de John Collins, The Paper Airplane Guy.

Ele conseguiu elevar o nível de performance(!) dos aviões de papel.

Ah, preciso fazer um importante adendo aqui, ainda entro desse tipo de tecnologia de modelos feitos de papel, citando a pesquisa do professor Manu Prakash e sua equipe que desenvolveram um microscópio de papel, um origami científico!

Mais uma vez temos a simplicidade surpreendendo.

Continuando, as ações de interação e montagens de meus próprios brinquedos ajudaram muito a entender o modelo, a maquete, o objeto como um todo.

Um recurso simples que uso ao desenhar é o de fazer uso de figuras geométricas para “ver” essa totalidade, a tridimensionalidade do tema que vou desenhar.

A mágica para representar a tridimensionalidade.

Acredito que no exemplo acima, em que uso as elipses como uma armação, uma estrutura para o que quero representar, você consegue ver a forma da garrafa e seu volume já no segundo desenho.

A linguagem do desenho faz uso de recursos SIMPLES como esse acima para ajudar a perceber o volume do que quero representar.

Sobre a superfície bidimensional do papel podemos representar o mundo tridimensional.

Consegue-se mostrar o volume.

Minha busca para entender as formas quase sempre contou com a ajuda da criação e produção dos mais diversos modelos e assim, de maneira prática,  acabei por desenvolver dois pequenos modelos de planadores , um monoplano e um biplano, feitos com material descartado e que voam muito bem por sinal.

Sim, finalmente consegui êxito nos vôos de meus modelos!

Em breve disponibilizarei planos para planadores e outros modelos em pdf para os apoiadores de meu canal.

Aguarde pois valerá a pena!

As experiências de vida e a intensidade em que acontecem podem ser modificadoras e moldar nossas personalidades.

Hoje em dia continuo a usar e a potencializar as experiências de construção de modelos como facilitadoras na idealização e produção de material visual para projetos comerciais, pessoais, artísticos ou técnicos.

Se você se cadastrou aqui no meu site deve ter recebido um pequeno manual para desenhar onde comento que devemos olhar o papel como um todo e não focar apenas em uma pequena parte dele por onde você começará a desenhar.

Independentemente do que vou começar a fazer eu procuro entender o contexto, a totalidade e o máximo de informação sobre o tema em questão para projetar a extensão do que poderei fazer usando minha arte.

Veja só, se você segurar uma garrafa de água e a olhar pelo máximo de ângulos possíveis poderá sentir visualmente o espaço que ela ocupa, os sulcos e curvas de sua superfície, suas dimensões e até seu peso irão facilitar, por exemplo, desenhá-la de memória.

Posso afirmar por experiência própria que a interação plena com a montagem de brinquedos, modelos e objetos me ajudaram muito(!!) a expandir tanto minha criatividade quanto a percepção espacial dos elementos que estão a minha volta.

Esse conhecimento tornou-se um facilitador para identificação e representação de formas e silhuetas, justamente fatores importantes que considero para desenhar cada vez melhor.

“Seja a água meu amigo” diria Bruce Lee e para desenhar eu digo “seja o ambiente que ocupará o que você irá desenhar”, “seja o papel e você saberá onde estarão os elementos de seu desenho”.

Sucesso para você e até a próxima postagem!!

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