Marcos Aurelio

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O Macaco de pelos de grama

O Macaco de pelos de grama

Com passos pesados, curtos e cuidadosos a enorme tartaruga sentia que aquele caminho agora começava a inclinar-se lentamente fazendo com que os esforços de seu avançar exigissem mais força e atenção pois estava liso e escorregadio em várias partes da mata.

A chuva já havia acabado há algumas horas e o calor e umidade faziam-se notar mesmo na parte mais baixa da mata próximo à vegetação rasteira.

As nevoas de evaporação tomavam o lugar mas o enorme animal , cuidadoso e atento, não sentia-se perdido apenas acordou naquela manhã com vontade de avançar um pouco mais além dos limites da área do pequeno vale.

Sua amada estaria em companhia do macaco e da cutia e como ela havia dado permissão , mesmo que de forma receosa , sabia que para aquela pequena aventura não poderia demorar.

Veio sozinho pois queria testar suas chances de explorar a enorme floresta para conhecer outras fontes de alimentos que ele e sua amada poderiam contar além das deliciosas castanhas.

Não estava enjoado do alimento mas apenas garantindo que poderiam recorrer à outras folhagens ou frutas que talvez existissem ali bem próximo do seu lar.

Foi quando de repente parou e ficou estático.

Seu caminhar era silencioso no inteiror da mata mesmo com aquele enorme casco roçando nos troncos e folhagens e sabia que não era prudente contar apenas com a proteção de seu enorme escudo natural contra possíveis predadores pois muitas vezes valia mais a pena passar despercebido do que encarar o perigo.

O que estava roubando sua atenção era uma certa agitação um pouco a frente e acima de onde estava, lá no meio da copa das árvores.

Entre as folhagens acontecia algo mas estava camuflado por elas.

-Será que havia algum predador atacando no alto das árvores? Pensou ele.

Foi quando, seguindo em direção do som e olhando para onde parecia ser a origem de tudo aquilo, viu algo caindo a poucos metros mais a frente de onde estava.

Preocupado mas ao mesmo tempo curioso hesitou por um instante mas acabou por seguir a curiosidade e partiu cuidadosamente em direção do local de onde veio o som da queda.

Notou um certo silêncio após aquela pequena agitação e de forma mais silenciosa seguiu avançando com todos os sentidos em alerta.

Quando chegou no suposto local não percebeu nada que correspondesse à sua expectativa pois a princípio acreditou que poderia ter sido a queda de algum animal mas não encontrou nada.

Enquanto se movimentava procurando farejar e escutar o máximo que podia naquele suposto local da queda acabou por perceber um som parecido com uma fraca respiração.

Avançou mais vasculhando com mais cuidado e foi quando pisou em algo que se mexeu e, por reflexo, rapidamente afastou sua pata dianteira do que parecia ser uma espécie de capim levemente esverdeado e que estava em meio a vegetação rasteira .

O que causou-lhe espanto no meio daquela mata foi que aquela porção de grama estava se mexendo.

Quando aproximou sua enorme cabeça para farejar melhor seus olhos começaram a seguir o estranho movimento e acabou por encontrar uma criatura que o olhava de volta.

Congelando seus movimentos a grande tartaruga ficou ali parada tentando entender que animal era aquele e se poderia ser perigoso.

Foi quando sentiu um leve roçar em seu pescoço que o fez afastar-se lentamente seu pescoço e perceber que eram as patas daquele estranho animal que o estavam tocando.

Na verdade eram garras curvadas e enormes.

Aproximou-se um pouco mais e agora podia ver que o animal não era muito grande e parecia com um macaco mas estranhamente maior, mais alongado e todo coberto por aquela grama estranha.

Também percebeu que  animal tinha os movimentos muito lentos e deduziu que poderia ser devido a algum ferimento causado pela queda.

Provavelmente aquele estranho macaso caiu de algum galho.

Cinzento ergueu sua cabeça procurando ver se havia algum galho ou ninho no meio das árvores que denunciassem onde era a casa daquele macaco.

Mas de repente teve um estranho pressentimento que o deixou em alerta.

Girou seu pescoço olhando ao seu redor mas algo chamou sua atenção para o alto e foi quando, não muito longe dali,  viu escondido em meio aos galhos de uma árvore alta um enorme e agitado pássaro.

Era realmente grande e parecia estar procurando algo.

E foi então que a enorme tartaruga imaginou que, por o pássaro ter um enorme bico e grandes unhas ela deveria estar caçando.

Sua experiência de ver pequenos animais da floresta serem caçados ou atacados por alguns pássaros de unhas parecidas mas muito menores do que as daquele pássaro indicava que era também uma ave caçadora.

Nesse instante foi tocado novamente pela pata do animal caído e dessa vez Cinzento pôde perceber medo nos olhos da pobre criatura.

Como que por instinto voltou sua cabeça para olhar novamente para o galho onde estava o enorme pássaro mas desta vez não o localizou.

Será que tinha ido embora? Será que ainda estava caçando ou acabou desistindo?

Os dois animais foram surpreendidos por um estranho sopro vindo do alto mas perto de onde estavam e a grande tartaruga notou que o pássaro voara para mais perto de onde estavam.

Sim, o pássaro ainda estava caçando!

Não pensou muito e naquela situação, inocentemente imaginou que não conseguiria , caso precisasse, enfrentar o pássaro e ao mesmo tempo proteger o pobre animal caído.

Sabia que a sobrevivência dependia da força e resistência dos animais que quisessem viver na mata e naquele momento agiu por instinto.

Olhou rápido a sua volta, não viu o pássaro mas acreditava que ele poderia estar ainda mais perto.

Aproximou-se do animal caído e foi nesse momento que sentiu um sopro de ar vindo por entre as árvores.

Não hesitou e foi para cima do animal que continuava no mesmo lugar e posicionou-se sobre ele como se fizesse uma cobertura com seu enorme corpo.

O animal caído parecia entender a intenção daquele estranho animal que o havia encontrado e também ficou completamente imóvel.

Cinzento, naquele momento havia encolhido seu pescoço e ficou com a cabeça baixa olhando para o animal caído quando de súbito sentiu algo pesar sobre suas costas.

O pássaro acabara de pousar no seu enorme casco.

A grande tartaruga era forte e resistente e manteve-se imóvel como uma enorme pedra.

Não se atrevia a olhar e a vegetação rasteira assim como a folhagem ao seu redor ajudou muito a esconder suas patas mas seu casco destacava-se fora delas e foi visto pelop enorme pássaro que agora estava ali pousado alternando o abrir e fechar de asas como se estivesse se equilibrando enquanto procurava por algo.

Cinzento sentia seu coração acelerado pois não tinha ideia do que fazer.

Se aquele enorme pássaro os descobrissem talvez pudesse avançar com força em direção de um tronco de árvore para que o impacto afugentasse ou assustasse aquele predador.

Na verdade, a preocupação crescente de ter um predador em suas costas e a responsabilidade de proteger o animal caído estava criando nele uma necessidade urgente para agir imediatamente. 

Foi quando sentiu um toque no seu pescoço.

Cuidadosamente olhou para baixo e pode ver o olhar do pequeno animal que o estava tocando novamente.

Não sabia explicar como mas somente por olhar para as feições do animal pode entender que estava sendo silenciosamente aconselhado para apenas não se mexer e continuar como estava.

Parado e silencioso.

O enorme pássaro que também sabia que ali, naquela área próximo ao chão poderia ser surpreendida por algum predador da floresta não demorou mais naquele lugar.

Seu domínio era no alto das árvores e percebendo que não encontraria o que procurava deu um forte impulso e voou por entre as árvores realizando um vôo rápido para longe do local.

Por experiência, Cinzento resolveu esperar um pouco antes de sair de cima do que , para ele, era um estranho Macaco de pelos de grama,  ainda caído e que parecia entender suas intenções.

 Tudo a sua volta parecia mais silencioso e então lentamente procurou com a cabeça levantada por algum sinal de perigo ou presença de algum predador que estivesse por perto.

Antes de sair de cima do animal fez questão de fazê-lo entender que era para ele esperar ali sem se mexer pois queria ter certeza de que estava tudo bem.

 O Macaco de pelos de grama levantou após ser avisado de que já poderia sair.

Foi então que a grande tartaruga começou a ficar muito nervosa e irritada olhando para o animal pois era um momento que pedia agilidade e destreza para saírem daquele lugar o mais rápido possível e aquele macaco era muito lento e calmo para se mover.

Não parecia entender que não deveriam ficar por muito tempo ali.

Será que sentia dores por causa da queda? Pensou ele.

Sem mais paciência para esperar resolveu voltar para próximo dele.

Agora acreditava que teria que carrega-lo pois devia estar muito ferido e por isso estava tão lento para se movimentar.

Com movimentos de seu corpo e pescoço, Cinzento indicou seu casco para que o animal subisse em suas costas.

O estranho macaco, sempre com um leve sorriso no rosto, entendeu e passou a subir naquele gigantesco corpo mas como a parte superior era mais lisa do que nas suas bordas resolveu ficar por ali mesmo apoiado bem próximo à parteb frontal do casco.

Cinzento não disfarçava  sua irritação com a lentidão que fezo animal para finalmente se acomodar em seu casco.

Estava tão preocupado que decidiu andar saindo o mais rápido dali embrenhando-se na mata agora com aquele animal que estava com a traseira virada para seu pescoço.

De vez em quando espiava para tras e era flagrado pelo olhar do animal dando piscadelas para ele.

Durante sua caminhada decidiu ir direto para a área do pequeno vale pois acreditava que sua amada deveria estar muito preocupada.

O jeito então era levar aquele macaco esquisito para lá para que, caso estivesse machucado, pudesse se recuperar, e quem sabe, ficar um tempo com seu grupo.

Estranhamente começou a sentir-se responsável por aquele animal e assim a medida que avançava sentia-se ainda mais obrigado a protege-lo.

Enquanto isso, na área do pequeno vale ao lado do lago, a desesperada Cutia corria de um lado para outro preocupada com seu gigantesco amigo que parecia estar atrasado para voltar.

O Macaco ria da cara dela fazendo imitações de seus movimentos rápidos e debochando de sua preocupação.

Sorriso, a enorme companheira, que até aquele momento estava calma aguardando o retorno de seu amado, aos poucos ia sendo contagiada pela aflição do roedor.

Assim ela resolveu agir e pediu para o macaco ajudá-la.

Ela o convenceu a subir no máximo de arvores que pudesse para que fosse possível avistar seu amado e avisá-la quando ele estivesse chegando.

Prontamente, mas ainda debochando da Cutia, passou a subir em algumas arvores avançando pelos galhos de suas copas e indo mais fundo na floresta ao lado do lago.

A cutia continuava preocupada e ora entrava correndo na mata, ora voltava em tentativas que pareciam sua forma de realizar buscas na parte rasteira da mata e dessa forma ver se encontrava algum sinal, som ou alguma indicação do retorno de seu amigo.

Sorriso estava procurando pelo vulto do macaco em meia as copas próximas mas ele já havia saltado para ouras mais a frente.

Nesse momento teve sensações que indicavam algo atrás do grande casco dela.

Virou-se e ficou voltada para a pare mais baixa da trilha que vinha do filete de água que saía do lago e subia até onde estava e começou a fixar sua visão para a parte mais baixa do pequeno vale.

Algo a perturbava e ficou tentando ver ou pelo menos perceber o que poderia ser.

Algo chamou sua atenção para a folhagem lateral e notou um ritmo se aproximando.

Retesou os músculos de suas pernas para fugir ou lutar caso fosse um predador.

Sua história de sobrevivência naquela floresta convencia de que aquele era seu novo lar e que valia a pena lutar por ele.

Para sua alegria saiu da mata seu amado porém, notou que havia algo agarrado em seu casco e avançou acelerada para tentar ajuda-lo pois havia uma criatura em seu casco.

Ele a viu movendo-se em sua direção com passadas rápidas e logo soltou um leve chiado para ela que foi rapidamente entendido como “está tudo bem, não se preocupe”

Já ao lado de seu amado ela continuava a olhar para aquele animal e não conseguia sentir um estranhamento maior do que apenas curiosidade.

O animal, por sua vez, a olhava de volta arregalando os pequenos olhos pois, se já tinha achado estranho ter sido encontrado por uma gigantesca tartaruga, estar agora próximo de uma segunda tão grande quanto a primeira era muita coisa acontecendo no mesmo dia.

O Macaco que havia retornado e a Cutia é claro já estavam junto do casal.

 Sem cerimonias o Macaco pulou no casco de seu amigo e aos poucos foi subindo por trás até chegar onde estava o tal Macaco de pelos de grama, chamado assim pela grande tartaruga que o carregava.

Já próximo e sendo também lentamente observado pelo carona, logo reconheceu o animal dizendo que era a Preguiça.

Não eram amigos pois o macaco nunca quis se envolver com aquela espécie de animais justamente por achá-los lentos demais.

Isso acabava com sua paciência e o deixava irritado pois não entendia como um animal desses poderia sobreviver se nem era rápido para fugir dos inimigos.

A Cutia, que saia do meio das pernas da sua grande amiga apoiou-se nas bordas do casco de seu amigo para farejar e olhar mais de perto o visitante que chegara de carona nas costas dele  acabou por desequilibrar-se no momento em que ele pôs-se a andar rápida e vigorosamente na direção da pedra de amassar para buscar refugio na discreta cobertura de arvores e folhagens que havia ali.

Estava com medo de ter sido visto pelo grande pássaro e aquela sensação de o sentir pousado em seu casco ainda o estava deixando muito perturbado.

No curto trajeto que fez até sentir-se seguro naquele local, ao lado do lago e da grande castanheira, ainda estava com o animal grudado na parte frontal de seu casco quando parou olhando para cima e para os lados como se preocupado com algo da floresta.

Aquela situação estava deixando seus amigo e amada curiosos mas também assustados.

O Macaco e a Cutia, já de frente para ele, queriam saber o porque de tudo aquilo mas Cinzento estava agora com a atenção voltada para o Macaco de pelos de grama tentando mostra-lhe que naquele local ele estaria seguro.

Com gestos e acenos, na esperança de que ele estivesse entendendo, flexionou suas pernas dianteiras com cuidado para abaixar o seu casco e arrebitou sua traseira o máximo que pôde esticando suas pernas.

Sua ideia de facilitar a descida do animal, que ele ainda achava estar ferido,  foi entendida pela preguiça que com movimentos lentos, girou seu corpo para sua esquerda , soltou a pata traseira buscando cuidadosamente tocar a grama e avançou com a pata dianteira já começando a deixar seu corpo deslizar pelo casco mas com velocidade controlada pelo longo braço direito que  ia esticando ainda seguro pelas enormes garras da pata direita.

Toda aquela cena deixou seus amigos impressionados ao ver seu enorme amigo com a traseira arrebitada, suas pernas dianteiras totalmente contraídas e um lento e paciente animal se movendo para sair de cima de seu casco,

Sorriso, estava segurando o máximo que podia uma gargalhada que estava presa em sua garganta.

A situação era realmente muito engraçada e inesperada pois a lentidão e aparente calma da Preguiça junto com a visível impaciência e irritação de seu amado pegou a todos de surpresa.

O macaco, debochado e abusado, não pensou duas vezes e começou a rir, gritando e pulando para os lados e fazendo cambalhotas ao mesmo tempo que batia com as mãos no chão chiando e gritando sem parar de tanta diversão que estava vendo.

A Cutia não fez por menos e girava seu corpo no próprio eixo além de fazer pequenas cambalhotas para traz e sua amada, não foi diferente e soltou um fluxo constante de chiados engraçados chacoalhando em movimentos frenéticos seu casco enquanto agachava de tanto rir.

Já a Preguiça, que parecia não entender o que acontecia, começou a achar que aquele lugar era muito divertido e que todos ali deviam ser muito felizes sem se preocupar com nada.

Cinzento, irritado e cheio de preocupação soltou um forte chiado de desaprovação e passou a encará-los mostrando que aquela situação era perigosa e pôs-se a relatar o que havia acontecido.

Rapidamente pararam de rir.

Sua amada estava agora com um olhar sério e aproximou-se para ver se o recém chegado estava ferido.

Cinzento, ainda muito preocupado com a possibilidade de ter sido seguido pelo grande pássaro estava temendo pela segurança de todos de seu grupo e queria ter certeza de que não trouxera perigo para o pequeno vale e decidiu subir até o local de seu ninho pois lá, no alto do mirante, poderia vasculhar por algum sinal daquele enorme pássaro.

Sua amada, notando a seriedade que seu amado estava dando para toda aquela situação indicou com gestos que ele poderia ir e que ela tomaria conta do animal e dos outros ali.

Seus amigos e a recém chegada preguiça viram o enorme animal se distanciar pelo caminho para rapidamente seguir a direita do lago em direção ao caminho que subia íngreme para o alto do morro lateral.

A ligeira caminhada o deixou bem ofegante mas não menos decidido.

Toda aquela situação era sua responsabilidade.

Já no mirante e de vigília ele esticava o pescoço e voltava seus olhos para qualquer movimento que percebia no alto das copas das árvores que circulavam o pequeno vale.

Lá de cima ele poderia saber se a segurança da região estaria garantida pelo menos com relação ao grande pássaro.

Acreditava que tinha sido descuidado mas sabia que deveria ter ajudado o Macaco de pelos de grama.

A partir daquele momento, se dependesse dele, nada aconteceria com o frágil e delicado animal.

E era seu dever proteger a todos.

Subitamente um som e movimentação ao longe chamaram sua atenção.

A direita de onde olhava e relativamente perto da área do vale havia uma sequência de grandes arvores e no meio da copa de uma delas os galhos estavam se agitando.

Aquela agitação acusava ser causada por um enorme pássaro.

Engoliu a seco enquanto voltava seu corpo naquela direção de forma imóvel e atenta.

– Não pode ser! Pensou ele, – Não ali tão perto!

Começo a mover-se inquieto mostrando demasiada preocupação.

O que poderia fazer se aquele pássaro fosse o caçador?

Como defender-se de um animal que consegue atacar vindo de cima?

Bem, caso aquele pássaro resolvesse voar na direção do pequeno vale, ele poderia tentar chiar o mais alto que pudesse para chamar sua atenção.

Caso sua inocente iniciativa desse certo, a única saída seria entrar o mais rápido possível na mata que continuava atrás dele fazendo bastante barulho mas o problema é que não conhecia aquela parte da floresta e poderia se perder.

Na verdade ele estava preocupado, assustado e confuso.

Estava com seus músculos tensos olhando fixamente aquele galho que se agitava e balançava de forma intensa e a preocupação e vontade de agir tomavam conta de seu corpo.

De repente, aquela agitação intensa parou e a silhueta do que parecia ser um enorme pássaro passou a sair do meio da folhagem para mostrar que não era um mas sim dois pássaros.

Cinzento arregalou os olhos e reconheceu imediatamente que eram dois pássaros de cabeça e peito vermelhos e pontas das asas com cores azuis, verdes e amarelas e com grandes bicos curvos característicos daquele conhecido pássaro que habita a região e que nunca fez mal algum aos companheiros do local.

Aliviado as viu saírem voando e vir na sua direção para em seguida passarem rapidamente bem acima de sua cabeça e logo se perderem por cima da mata atrás dele.

-Que alívio!

No pequeno vale logo que Sorriso viu seu amado subir em direção do mirante ela voltou sua atenção para o visitante.

Agora com mais atenção notou que a Preguiça tinhas unhas bem compridas, olhos meigos, braços enormes e um pequeno sorriso amigo que direcionava para todos os que estavam a sua volta.

Ela resolveu pegar algumas folhas mas fora alertada pelo macaco que a tal preguiça gostava de um tipo específico de folhas que comia de uma determinada árvore e essa não existia naquela área.

Preocupada ela sabia que se fosse verdade aquele animal passaria fome e poderia até morrer.

O Macaco sabia disso e insistia em deixar isso claro para a grande tartaruga.

Bem, se ela não estava ferida o jeito seria leva-la de volta para alguma parte da floresta que tivesse seu alimento e que pudesse seguir sua vida em paz.

Ainda no chão e vendo a agitada conversa daqueles inofensivos animais a Preguiça entendeu a preocupação de todos e resolveu acenar com sua garra para que a grande tartaruga se aproximasse.

Sem preocupações ou desconfiança e guiada pelo instinto ela aproximou sua enorme cabeça que logo foi abraçada carinhosamente pelo lento animal.

O Macaco e a Cutia, curiosos, quiseram saber o que ela cochichava nos ouvidos da gigantesca amiga.

Sorriso arregalou os olhos e sorriu olhando para aquele pequeno rosto calmo e paciente do animal que agora começava a se afastar daquele grupo indo em direção da mata por trás da grande castanheira.

Os dois curiosos começaram a ficar muito agitados por estarem preocupados com o que havia sido dito e porque ela estava se afastando sem que sua amiga nada fizesse para impedir.

– O que ela disse? O que ela disse? Perguntavam agitados.

O Macaco pulava e agitava os braços na frente de sua amiga e a Cutia corria por entre as pernas dela tentando chamar sua atenção enquanto Sorriso continuava a olhar a recém chegada que agora partia sem olhar para trás.

Lenta e decidida deslizou para baixo das folhagens até sumir totalmente na floresta.

Não demorou muito para que seu amado retornasse, ofegante com passadas firmes e rápidas na direção do pequeno grupo mas logo se apavorou ao perceber que o Macaco de pelos de grama não estava mais lá.

Muito sério e com os olhos arregalados perguntou o que tinha acontecido e em meio a quietude do Macaco e da Cutia entendeu que sabiam de algo mas estavam nervosos demais para contar.

Olhou rapidamente na direção de sua amada mas antes que dissesse algo ela aproximou-se já com a intenção de acalmar o agora agitado e preocupado companheiro.

Os dois pequenos amigos vendo o casal próximo também se aproximaram.

Aquele momento para ele estava parecendo uma preparação para más notícias mas logo sua amada começou a contar o que houve e porque a preguiça tinha ido embora.

Passou a explicar que o pequeno vale não é o lar dela e como não havia o alimento que ela estava acostumada poderia morrer de fome.

Sentindo-se indignado não entendia qual era o problema de ficar naquele local e acreditava que poderiam cuidar dela e talvez até encontrar e trazer alimentos para que não morresse de fome e não precisasse ir embora.

Para ele o Macaco de pelos de grama era muito frágil e a mata estava cheia de perigos mas ali ele poderia cuidar dela assim como cuidava de todos do grupo.

Cinzento agora começava a movimentar-se de forma intensa e nervosa.

Não aceitava o motivo de sua amada tê-lo deixado ir embora.

– Ela está grávida! Respondeu para espanto dos três que agora estavam estáticos olhando para ela.

Uma enorme aflição explodiu dentro de Cinzento que agora começara a tentar farejar o rastro do Macaco de pelos de grama, seu protegido.

Mais do que nunca tinha agora o dever de encontrá-lo.

Rapidamente sua amada postou-se na sua frente o impedindo de caminhar e agora, com um olhar mais sério fez seu amado afastar-se estranhando e tentando decifrar a atitude de sua amada.

Calmamente ela passou a lembrá-lo que a vida na floresta é perigosa e isso os dois sabiam muito bem, lembrando para ele os terríveis momentos, situações e acontecimentos que passaram até encontrar o pequeno vale e que sempre fizeram o possível para sobreviver mas que nem sempre conseguiram proteger a todos.

Completou dizendo que as vezes o que é preciso fazer é simplesmente deixar a vida seguir seu curso e que a decisão de ir embora foi dela.

Por fim disse que ele a ajudou e ela sentia-se muito agradecida mas sempre soube dos riscos de viver numa floresta enorme como essa principalmente agora que aumentará sua família.

Após tudo isso, Sorriso aproxima-se de seu amado com um olhar gentil e apaixonado, encosta seu rosto no dele e o abraça com seu pescoço dizendo que a Preguiça vai fazer o que eles vem tentando fazer há um bom tempo que é o de correr riscos para tentar formar a própria família.

– Fique calmo e confie no instinto. Continuou ela.

– Estamos em uma parte diferente da floresta e longe de onde você disse tê-la encontrado.

– Ela vai conseguir usar os próprios instintos e encontrar um novo lar.

Pode parecer que todas aquelas palavras estariam acalmando Cinzento mas não foi o caso.

Por dentro ele continuava ainda mais preocupado e temia pela sobrevivência do frágil animal que agora estava longe e jogado à própria sorte.

O tempo foi passando e mesmo após tantos dias desde o ocorrido, Cinzento, a grande tartaruga  continuava muito inquieto, preocupado e angustiado.

Certo dia, sua amada resolveu acompanhá-lo nas explorações dentro da floresta na busca de opções para novas fontes de alimentos.

Não estavam muito distantes do pequeno vale mas em uma parte mais fechada da mata.

Ele ia na frente resmungando, de certa forma até um pouco descuidado e distraído pelo caminho.

Ela vinha logo atrás mas bem mais alerta, tanto quanto ao ataque de algum predador quanto ao seu amado, que caminhava de cabeça baixa e chateado com ela pois ainda não aceitava a decisão dela de ter deixado o pequeno animal ir embora.

Ele seguia sem dar muita atenção para o caminho.

Era como se nem estivesse interessado em fazer aquela exploração.

De súbito sua amada parou.

Ficou estática olhando para a frente  com os olhos assustados sem piscar e pescoço esticado para cima.

Cinzento não demorou para perceber que sua amada não o estava seguindo e por instinto voltou sua cabeça seguido pelo enorme corpo para ir em sua direção.

O que a teria assustado?

Porém, no momento em que iniciava seu movimento para alcançar sua amada algo tocou seu pescoço bem próximo de sua cabeça.

Aquele toque estava agora envolvendo seu pescoço e o puxando para a lateral.

Por precaução ele manteve seu corpo estático e estranha e lentamente foi acompanhando com a cabeça a direção que estava sendo puxado.

Seus olhos arregalados começaram a virar antes que sua cabeça estivesse direcionada para aquilo que o conduzia.

Ao termino do movimento seus olhos arregalaram-se ainda mais pois bem ali na sua frente logo acima de sua cabeça estava o macaco de pelos de grama.

Sua amada já havia se recobrado da surpresa e estava ao lado de seu amado sem que esse a tivesse percebido.

Bem ali, cara a cara com o amigo, a Preguiça o estava encarando com aquele olhar sereno e amigável mas para a surpresa dos dois enormes animais surgiu por traz do corpo dela a pequena cabeça de um filhotinho, que segurava apertado o pescoço da mãe.

Aquilo preencheu o corpo de Cinzento com uma felicidade plena e alegre que o faziam trocar seu olhar ora para sua amada ora para a Preguiça que ainda continuava a tocar o rosto de seu gigantesco amigo.

Parecia que a Preguiça ainda estava se alimentando quando resolveu descer para rever os amigos pois em sua boca havia um pedaço de folha que ia sendo mastigada lentamente.

As duas enormes tartarugas perceberam que aquela árvore em que o animal estava pendurado era cheia de galhos cobertos de grandes folhagens e que eram perfeitas para disfarçar sua presença mas não eram iguais àquela que ainda estava sendo lentamente mastigada.

 A Preguiça não demorou muito nesse encontro e com um gesto simples se despediu e começou a subir de volta pelo tronco da árvore e foi durante sua lenta escalada que o casal notou que aqueles galhos estavam servindo como ponte para uma outra árvore bem ao lado, de tronco esguio e com uma copa de poucos galhos e folhas grandes.

Perceberam que ela ficava disfarçada pela arvore vizinha cheia de galhos.

Cinzento viu que aquilo poderia ajudar a esconder sua amiga de predadores e talvez até do enorme pássaro.

Entendeu finalmente o que sua amada tentou explicar quando disse que a vida segue seu caminho e que é possível encontrar formas de viver naquela enorme floresta.

Dessa vez foi Sorriso quem tocou seu pescoço o tirando da atenção que dava para a subida que sua amiga fazia pela arvore e já mordicando as folhas daquela árvore escondida.

Como se fosse um último adeus olhou para a mamãe e seu filhote mais uma vez para em seguida trilhar seu caminho para explorar outras surpresas que poderiam estar em seu caminho naquela floresta.

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