Marcos Aurelio

Olá, sou Marcos Aurélio e trabalho com ilustração profissional desde 1991!

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O café da manhã

O café da manhã

Esse é o primeiro conto de vários que antecederão minha campanha de financiamento coletivo para o livro Nena e também a primeira leitura sobre o mundo da grande tartaruga.

Boa leitura!

“Cinzento, a grande tartaruga macho, já estava fora da toca vasculhando o local para ter certeza de que poderia sair em busca de alimentos e garantindo assim que o local do ninho estaria seguro.

Notou sem estranhar alguns pequenos passarinhos em cima da pilha de ouriços tentando encontrar dentro deles alguma sobra de castanhas para comer.

Esses ouriços eram uma forma prática de trazer as castanhas até seu ninho.

Ficavam ocos após a retirada das castanhas pela Cutia e pelo Macaco e quando os dois lembravam as abasteciam com castanhas descascadas para as grandes tartarugas que as vezes os levavam até o alto do morro onde, após terminarem sua refeição, os colocavam vazios na área do mirante próximo de sua toca.

Nesse local Sorriso, sua companheira, gostava de colocar um em cima do outro e com o tempo percebeu que era como se estivesse, no entender dela, construindo a forma do casco de uma grande tartaruga e dessa forma sentia que acalmava seu coração por aliviar um pouco a saudade que ainda sentia de sua família e amigos do seu antigo lar.

As vezes a pilha ameaçava desmoronar devido ao movimento dos pequenos pássaros mas estes não sentiam-se intimidados e continuavam saltitando procurando algo para comer.

Sua amada ainda descansava sobre o ninho -ainda vazio – no fundo da toca.

Já faziam alguns dias que estava sentindo-se diferente e entre trocas de olhares os dois alimentavam a possibilidade de que aquele fosse sinal de uma possível ninhada que poderia estar chegando trazendo a esperança de que finalmente poderiam ter seus filhotes em um local seguro.

Ainda era muito cedo mas faltava pouco para os primeiros raios de sol surgirem e a escuridão da madrugada começava a se dissipar.

Lentamente mas atento ele preparava-se para descer o caminho que levava até o pequeno riacho ao lado da grande castanheira.

Um pouco antes da sua caminhada ele deu mais uma olhada em vigilância ao redor vasculhando, farejando e tentando ouvir alguma coisa estranha mas apenas o leve assobio da brisa e chacoalhar leve de folhas das arvores daquele platô se faziam notar além é claro dos movimentos impacientes e famintos passarinhos.

A claridade da manhã já estava levemente mais presente e em sua descida percebia a penumbra que o pequeno vale ainda se encontrava.

Era sempre mais seguro sair com o sol a mostra mas sabia que não iria demorar em sua missão para coletar as castanhas.

O Macaco e a Cutia provavelmente estariam dormindo mas não haveria trabalho em encontrar algumas das castanhas já separadas pelos amigos que as vezes as deixavam protegidas por cobertura de folhas sobre a pedra de esmagar.

Já na parte mais baixa do vale e ao cruzar o pequeno fio de agua que vazava do pequeno riacho parou subitamente sua caminhada.

Estranhamente, já em estado de alerta, teve uma sensação parecendo indicar que algo estivesse fora do lugar.

Não eram as pedras, ou alguma movimentação na mata, mas era como se o ar estivesse com um aroma diferente, como se estivesse se movendo de forma diferente.

Poderia ser apenas pela ainda leve escuridão do lugar mas sentiu-se incomodado com aquilo e por segurança acelerou em direção da pedra de amassar castanhas para , caso não encontrasse o alimento separado teria que se virar com as poucas que encontrasse esquecidas pelos amigos ou na pior das hipóteses teria ele mesmo que quebrar os ouriços, retirar as castanhas e tentar limpá-las ali mesmo já que não haviam pedras de quebrar na área do ninho.

Já de frente à pedra de quebrar retirou as folhas e notou poucas castanhas já descascadas e mesmo sendo pequena a quantidade já seria suficiente para a refeição dele e de sua amada.

Haviam ali alguns ouriços vazios e usaria um para colocar as castanhas e assim facilitar o transporte.

Ele continuava incomodado justamente por não saber o que poderia estar causando a preocupação e assim estava apressado fazendo as tarefas.

Já com o ouriço separado ao lado da pedra e quando estava abaixando-se para pegar as pequenas frutas ficou estático por um instante pois agora percebeu uma inquietação vindo das folhas por detrás do seu grande casco.

Retesou os músculos do seu corpo como se aguardando algum ataque e de forma cuidadosa virou o grande pescoço para sua direita o esticando o máximo que podia para tentar ver algo e pode perceber, por entre as folhas da vegetação baixa a Cutia com seus grandes olhos arregalados mas paralisada e tremendo olhando além do riacho, em direção oposta em que estavam, na direção do caminho do ninho das grandes tartarugas.

Cinzento voltou sua cabeça para a posição inicial mas a levantou o máximo que pode com movimento de patas descendo mais para sua esquerda ficando totalmente de frente para a direção da ladeira por onde havia chegado e que era seu caminho seguro até seu ninho.

Nesse momento, assim como sua amiga a Cutia,  também arregalou os olhos e em pânico entendeu que deveria sair dali o mais rápido possível.

Dentro do ninho  e encolhida lá no fundo Sorriso, após tatear com a cabeça e depois com seu enorme corpo o local procurando por seu amado, ainda sentia-se sonolenta mas levantou-se mesmo assim e foi levemente cambaleante em direção da entrada de seu ninho pois seu companheiro não tinha voltado e não havia sinal de que estaria olhando o nascer do sol no mirante ao lado do ninho como gostavam de fazer pois o calor dos primeiros raios do amanhecer eram muito estimulantes para começar o dia.

Realmente não havia sinal algum de seu retorno apenas o seu cheiro ralo que denunciava que já fazia um bom tempo que havia saído.

Subitamente ficou estática parada em frente ao ninho já totalmente fora da toca.

Havia algo estranho no ar, nenhum barulho ou som de animais , pássaros mas uma brisa que subia pelo caminho do riacho que denunciava algo de estranho em seu ambiente tantas vezes seguro e protegido.

Houve um momento em que assustou-se com os passarinhos que estavam em cima dos ouriços pois rapidamente voaram em bando às pressas.

Algo estava acontecendo mas ela não tinha ideia o que poderia ser.

 Quando decidiu mover-se ela o fez lentamente indo na direção do cheiro que vinha do caminho da ladeira e que começara ficar mais forte.

Não demorou muito para finalmente ter uma visão assustadora que a fez temer muito mais pelo paradeiro do seu amado do que pela própria segurança.

Bem ali na sua frente estava a cabeça de uma gigantesca cobra sucuri.

Aquele enorme animal não tinha avistado ainda a grande tartaruga pois parecia também estar sentindo o ambiente com sua língua que saia e entrava na enorme boca em intervalos como se estivesse sentindo o ambiente.

E foi em um desses instantes que, ao se prolongar por mais espaço naquele local, girou sua cabeça seguida de parte do seu corpo a mostra em direção do ninho para finalmente ver a grande tartaruga parada na sua frente.

Não demorou muito para que a enorme cobra retesasse o corpo a mostra como se ao encolher buscasse acumular o máximo de força e energia para que assim pudesse saltar em direção do estranho animal que estava à sua frente.

Aquela gigantesca cobra já havia comido mamíferos de tamanhos variados e até tartarugas mas aquele enorme animal era algo totalmente novo para ela.

Ela não deixaria aquele local sem pelo menos tentar saborear aquele recém descoberto animal.

A grande tartaruga por um instante entendeu o que estava para acontecer e rapidamente ajeitou-se como se quisesse avançar com toda sua força em direção daquela assustadora criatura.

Sua ideia inicial, totalmente no improviso, seria, com a cabeça encolhida protegida pela parte frontal do casco, tentar aplicar algum golpe ou ferimento antes de ser atingida ou mordida por aquela cobra.

O casco, com sorte,  poderia até funcionar como um escudo mas após isso não teria muito o que fazer.

Reconhecia que estava apenas agindo com um corajoso instinto de sobrevivência.

Não havia escapatória daquela situação, ou enfrentava ou não haveria como fugir dada a distância que as duas estavam.

A cobra parecia entender a reação e intenção da enorme tartaruga e pareceu até aceitar aquele inusitado desafio.

Porém, foi nesse momento que a enorme cobra , no instante em que já ia liberar toda a energia acumulada para atacar que ela soltou um enorme guincho jogando a cabeça para traz abrindo a boca o máximo que podia.

No meio da ladeira, logo abaixo deles Cinzento, que rapidamente havia dado a volta no riacho e escalado parte da ladeira, havia alcançado a cauda do enorme animal e o estava abocanhando com toda a sua força e puxando para trás aquele feroz animal que agora estava se contorcendo de dor pois a mordida da enorme tartaruga estava pressionando com tanta força que aquela cobra, pega totalmente de surpresa, entrou em pânico acreditando que estava sendo atacada por outro predador.

Estava sendo arrastada por parte da ladeira abaixo e começou a jogar o contorcido e agitado corpo para a lateral da ladeira na direção do abismo, com o riacho ao fundo, ao mesmo tempo que sua iminente queda era contida por parte da vegetação.

Mas com toda aquela agitação Cinzento, que mordia com cada vez mais força, estava começando a se cansar mas sabia que não deveria soltá-la e assim continuava exercendo pressão e puxando com toda a força que ainda lhe restava.

O enorme corpo da cobra já tinha se misturada à vegetação lateral e agora parte dele estava caindo pela margem do barranco mas ainda sendo mantido apenas pela força do misterioso animal que a segurava dolorosamente pela cauda – ela ainda não sabia o que era – e também por ter abocanhado rapidamente , num momento de desespero para evitar a queda, um fino tronco de árvore que agora começava a curvar-se lentamente devido a tanto peso e agitação descontrolada daquela cobra.

No alto do morro chegavam os barulhos da agitação com chiados do animal, chacoalhar de galhos e toda uma movimentação que só poderia ser vista com segurança se Sorriso se posicionasse no alto do mirante.

Daquele local seria possível descobrir o que realmente estava acontecendo com aquele perigoso animal.

A cena era pior do que poderia imaginar pois a enorme cobra estava mordendo fortemente um tronco com boa parte do corpo caindo em direção do riacho e para seu espanto maior ainda viu seu amado mordendo e puxando a enorme cobra.

Percebeu, porém, que ele começava a fraquejar e sabia que teria que ajudá-lo de alguma maneira pois a cobra poderia sair daquela situação e atacá-lo.

Lá de cima ela tentou agitadamente procurar ao seu redor se haveria algo que pudesse ajudá-la a interferir naquela situação.

Foi quando por um instante ela parou, refletiu e agiu.

Na tentativa de arrastar-se para fora daquele pequeno abismo e de cair no riacho a gigantesca cobra tentou segurar-se o máximo que podia e esforçar-se para jogar o musculoso corpo para a parte de cima da ladeira mas seu agitado balançar estava forçando em demasia o pequeno tronco que já estava curvando perigosamente prestes a partir.

Mas antes de romper-se um instante de pânico tomou conta daquela cobra que viu caindo em sua direção uma quantidade enorme do que parecia serem pedras rolando pelo barranco e que acabaram por atingir a lateral de seu corpo causando susto e dor que a fizeram soltar do pequeno tronco e finalmente cair em direção da parte mais funda do riacho.

Cinzento, pego totalmente de surpresa, acabou por aliviar a pressão da mordida facilitando o escape da cauda e por um instante também pensou que eram pedras mas no momento em que uma delas rolou na sua direção reconheceu serem os ouriços que estavam empilhados no alto do morro.

A enorme cobra contorcia-se em pleno ar enquanto caía e fez muito barulho após atingir a água.

Agitava e debatia-se por estar muito assustada com o ocorrido e procurou instintivamente sair o mais rápido possível daquela situação.

Não estava gravemente ferida e não se afogaria mas a surpresa de ser atacada foi algo inimaginável para aquele enorme predador que de forma ágil foi em direção da margem rasa do riacho e sem hesitação movimentou-se em fuga para a mata sem olhar para trás desaparecendo em seguida em meio à barulhos e agitações bruscas da vegetação que logo cessaram.

Sorriso já havia descido boa parte da ladeira para encontrar seu amado que observava em vigília na direção da mata que o animal havia entrado.

Estava tão tenso e concentrado que não notou a aproximação de sua amada que o abraçava com seu pescoço tentando certificar-se que ele estava bem.

Não demorou muito para voltar sua preocupação para sua amada que continuava a abraça-lo com seu pescoço.

Ambos agora se olhavam, se tocavam e de certa forma checavam o corpo um do outro para terem certeza de que estavam bem apesar de tanto pavor e agitação que foi aquele começo de manhã.

Correu para o lado deles a Cutia que assustada circulava agilmente por entre as pernas dos dois tentando ora ficar protegida e ora verificando se eles estavam bem.

O Macaco chegou logo depois e alternando os saltos pulou de casco em casco chiando e gritando de alegria mas ainda muito assustado por ter visto todo aquele ataque do alto de uma árvore ao lado da castanheira.

De repente ele afastou-se dando a volta no riacho e voltando pouco depois da área da pedra de rachar.

Aproximou-se do Cinzento carregando algo que parecia uma pedra.

De forma tímida como se sentisse culpado pelo ocorrido esticou os braços oferecendo o ouriço que havia deixado para trás.

Os dois enormes animais o olhavam com carinho e amizade e juntos o abraçaram com seus pescoços esticados.

A grande tartaruga segurou com a boca o ouriço pelo buraco em sua casca e em seguida, ele e sua amada, caminharam ladeira acima de volta para a segurança do ninho.

O café da manhã finalmente estava garantido.”

Ouriço aberto e castanhas com e sem casca.
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